Descobrir fosfina em Vênus NÃO significa que necessariamente há vida por lá


Descobrir fosfina em Vênus NÃO significa que necessariamente há vida por lá

Nesta semana, o mundo foi surpreendido com uma descoberta para lá de empolgante: existem moléculas de fosfina na atmosfera de Vênus e, como a fosfina é considerada uma bioassinatura, uma das explicações para sua existência seria, então, a atividade de algum tipo de vida no “planeta infernal”. Porém, essa pode ser uma explicação, não sendo, necessariamente, uma prova de vida; portanto, é cedo demais para sair dizendo por aí que “existe vida em Vênus”.

O que é fosfina?

Antes de qualquer coisa, é preciso entender o que é a fosfina, e por que ela é considerada por astrobiólogos como uma bioassinatura, indicando que é (ou pode ser) produzida por seres vivos.

No universo, a fosfina é uma molécula um tanto quanto rara. Os elementos mais comuns espaço afora são hidrogênio (H) e hélio (He), que foram produzidos no Big Bang. Depois deles, vêm o oxigênio (O), o carbono (C) e o nitrogênio (N), formados pelas primeiras gerações de estrelas.

Enquanto os planetas rochosos do Sistema Solar estavam em seus estágios iniciais de formação, suas atmosferas rudimentares eram dominadas por esses elementos, provavelmente também abrigando grandes quantidades de água (H2O), metano (CH4) e amônia (NH3).

Só que a combinação de todos esses elementos acaba formando outras moléculas, como é o caso do silano (SiH4), que é análogo ao metano; do sulfeto de hidrogênio (H2S), que tem muita coisa em comum com a água; e, enfim, da fosfina (PH3), que compartilha características com a amônia.

Na Terra, a fosfina só existe como consequência de dois processos: o primeiro é o biológico, envolvendo micróbios específicos que produzem a fosfina em ambientes livres de oxigênio; e o segundo envolve processos industriais, com a fosfina sendo produzida para ser usada como veneno — ela já foi usada como arma química durante a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, e até os dias de hoje segue sendo produzida para compor pesticidas.

Eis que então é anunciada a descoberta de fosfina nas camadas superiores da atmosfera de Vênus, em cerca de 20 partes por bilhão. Só que, na comunidade da astrobiologia, não se conhece outras fontes de fosfina no espaço a não ser em condições de temperaturas muito extremas, como é o caso das densas atmosferas internas de Júpiter e Saturno, ou em estrelas. Contudo, a presença de fosfina em Vênus está nas camadas superiores, na considerada “zona temperada” do planeta — região com temperaturas e pressões atmosféricas comparáveis às que temos na superfície da Terra.

Ou seja: tudo parece indicar que a fosfina de Vênus tem grandes chances de estar sendo produzida por algum tipo de vida, com a possibilidade de ser mesmo uma bioassinatura.

O que significa descobrir fosfina em Vênus?

Podemos trabalhar com duas hipóteses principais: a primeira, de que a fonte de fosfina em Vênus é mesmo biológica; a segunda, de que isso é fruto de processos físicos ou químicos que não seriam esperados, de acordo com nosso conhecimento atual, em planetas rochosos.

Nesse segundo caso (que, para cientistas mais cautelosos, parece mais provável), ficará apenas a confirmação de que nós, humanos, ainda somos muito ignorantes sobre o espaço que nos cerca, e devemos continuar estudando e explorando o universo para compreendê-lo cada vez mais a fundo.

Já caso seja comprovado que a fosfina de Vênus está mesmo sendo produzida por algum tipo de vida microbiana flutuando na “zona habitável” da atmosfera, isso significa que a vida não existe apenas na Terra — o que terá impactos profundos em toda a sociedade, não apenas na ciência. Afinal, enfim teremos a resposta de uma das questões mais antigas da humanidade, e certamente a maneira como encaramos o universo, nosso planeta e nossa própria existência, será completamente transformada.

Isso também nos indicará caminhos para encontrarmos formas de vida em muitos outros mundos, incluindo exoplanetas — aqueles que fazem parte de outros sistemas estelares, orbitando estrelas diferentes do Sol. Se a vida evoluiu aqui do nosso lado, no planeta vizinho, sem que tenhamos descoberto isso por tanto tempo, ela pode muito bem estar presente em diversos outros mundos, tanto próximos de nós, quanto mais distantes. O conceito que temos, hoje, sobre habitabilidade, será completamente transformado.

Bom, é exatamente isso o que cientistas, a partir de agora, trabalharão para descobrir — e talvez seja necessário enviar sondas espaciais à atmosfera de Vênus para fazer estudos mais aprofundados. Mas, caso o estudo que descobriu a fosfina em Vênus esteja mesmo correto, uma coisa é certa: definitivamente, uma reação química ainda misteriosa para nós está rolando por lá, liberando a fosfina nas camadas superiores da atmosfera venusiana. Se essa reação é fruto de processos biológicos ou não, essa é a grande questão do momento — e precisamos dar tempo ao tempo para sabermos a resposta.

Ainda temos muito a descobrir sobre Vênus

Nosso vizinho ainda é bastante misterioso para nós, mesmo que ele esteja tão próximo (em escalas cósmicas). As extremas condições de temperatura superficial e pressão atmosférica de Vênus são grandes impedimentos para a realização de missões presenciais — ainda que já tenhamos, por algumas décadas, feito tentativas do tipo, o que, certamente, nos forneceu algum conhecimento a mais sobre o planeta. Outra forma que temos de estudar Vênus é fazendo observações a distância com telescópios poderosos tanto em Terra quando no espaço, bem como quando sondas espaciais com outros destinos dão uma “passadinha” pelos arredores venusianos.

Para entender melhor o planeta, precisaremos de novas observações, incluindo o envio de sondas à órbita de Vênus, ou até mesmo equipamentos capazes de “sobreviver” na superfície. E a boa notícia é que, mesmo antes da descoberta da fosfina, agências espaciais e empresas privadas já vinham mirando o “planeta infernal” como destino para o futuro próximo.

A última missão norte-americana rumo a Vênus foi a Magellan, trinta anos atrás, e a NASA já vinha se mostrando interessada em explorar novamente o planeta, presencialmente, nos últimos anos — contando, agora, com tecnologias mais avançadas que não existiam naquela época. Em 2018, inclusive, a agência espacial dos Estados Unidos chegou a falar sobre uma proposta de missão chamada High Altitude Venus Operational Concept (HAVOC), que levaria (pasmem!) astronautas a Vênus. Mas, muito antes de sermos capazes de levar pessoas para lá, novas missões robóticas devem acontecer. É o caso da sonda orbital VERITAS, cujo projeto visa estudar a geologia venusiana, criando um mapeamento 3D global para descobrir mais sobre a composição de sua superfície. A ideia é que essa missão seja lançada em 2026.

Quem também tem um projeto na mesa para estudar Vênus é a agência espacial indiana (ISRO), com a missão Venus Shukrayaan-1. Junto a ela, deve ser enviado, também, um satélite chamado Venusian Neutrals Analyzer (VNA), fruto de uma parceria do Instituto Sueco de Física Espacial (IRF) com a Agência Espacial Europeia (ESA). A ideia, aqui, é entender um pouco melhor a interação entre o vento solar e a atmosfera de Vênus — mas esse lançamento ainda não tem data marcada para acontecer.

Por fim, vem a iniciativa privada, que pode sair à frente das agências estatais: a empresa Rocket Lab pode, já em 2023, enviar uma missão justamente para estudar a possibilidade de haver vida em Vênus. Para isso, ela enviará à órbita venusiana o satélite Photon, que sondará a atmosfera do planeta, equipado com instrumentos científicos valiosos.

Resumo da ópera: se, até pouco tempo atrás, Marte era o “queridinho” na busca por bioassinaturas (ainda que de vida antiga, que já não deve mais existir por lá) no Sistema Solar, agora é a vez de Vênus brilhar muito nessa busca. A década de 2020 ainda tem como destaque a exploração do Planeta Vermelho, claro, mas o nosso outro vizinho mais próximo certamente não ficará fora dos holofotes.

Via: Starts With a Bang, Medium/James Mason, Sky & Telescope, TecMundo

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