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Telepatia: voluntários compartilham pensamentos via internet

Marcos Marcos Siga-me Nov 25, 2019 · 4 mins read
Telepatia: voluntários compartilham pensamentos via internet
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A comunicação telepática parece uma opção restrita à ficção científica, apesar dos significativos avanços tecnológicos dos últimos anos. Pesquisadores da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, apresentam uma solução que pode tirá-la do campo imaginativo e trazê-la para a realidade. Eles conseguiram que três pessoas resolvessem, juntas, um problema simples de lógica compartilhando o pensamento. Detalhes do trabalho foram apresentados na revista Nature Scientific Reports.

Intitulada BrainNet, a solução tem como base uma interface cérebro-cérebro. A ideia surgiu a partir de uma característica marcante dos humanos. “Somos seres sociais que se comunicam para cooperar e resolver problemas que nenhum de nós pode resolver por conta própria”, diz Rajesh Rao, um dos autores do artigo e professor da universidade estadunidense. “Queríamos saber se um grupo de pessoas poderia colaborar usando apenas seu cérebro. Foi assim que surgiu a ideia do BrainNet, em que duas pessoas ajudam uma terceira a resolver uma tarefa”, completa a cientista Elizabeth Hwang.

No protótipo, os voluntários precisam resolver um jogo semelhante ao Tetris. Na parte superior da tela de um computador, aparece um bloco que pode mudar de forma para que seja possível montar uma linha na parte inferior da tela. Os participantes têm funções e condições distintas. Dois deles, os remetentes, veem os blocos e as linhas, podem decidir por mudar o formato dos blocos, mas não conseguem executar a mudança. O terceiro jogador, o receptor, consegue ver apenas os blocos e repassar ao jogo se eles devem mudar de forma ou não.

Para exercer as funções, os dois remetentes usam uma espécie de touca de eletroencefalografia, responsável por captar a atividade elétrica no cérebro. Na tela, além dos blocos, aparecem dois comandos, cada um de um lado, para trocar o formato das peças: “sim” e “não”. Abaixo da opção “sim”, um LED pisca 17 vezes por segundo. Abaixo da opção “não”, 15 vezes por segundo.

Ao olhar para uma das respostas, os participantes desenvolvem tipos únicos de atividade no cérebro, captados pela touca. Um computador fornece feedback em tempo real, exibindo um cursor na tela que se move na direção da escolha desejada. “Uma vez que o remetente tome uma decisão sobre rodar o bloco, ele envia ‘sim’ ou ‘não’ ao cérebro do receptor, concentrando-se na luz correspondente”, explica Linxing Preston Jiang, um dos autores da pesquisa.

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Neurônios enganados

Via internet, o receptor recebe as decisões dos remetentes. Esse jogador tem, na parte de trás da cabeça, um dispositivo, similar a uma raquete, que consegue estimular a parte do cérebro que traduz sinais dos olhos. “Essencialmente, enganamos os neurônios na parte de trás do cérebro para espalharem a mensagem de que eles receberam sinais dos olhos. Em seguida, os participantes têm a sensação de que arcos ou objetos brilhantes aparecem repentinamente na frente dos seus olhos”, resume Andrea Stocco, professor-assistente da universidade e participante da equipe de pesquisadores.

Os outros dois participantes têm a oportunidade de rever a decisão do receptor e enviar correções caso discordem. Uma vez que o receptor envia uma segunda decisão, todos descobrem se conseguiram formar a linha. A equipe testou o método em cinco grupos distintos. Cada participante de cada grupo ficou em uma sala, sem conseguir ver, ouvir ou falar com outros dois integrantes da equipe. Eles tinham que jogar 16 rodadas. Em média, resolveram 13 das 16, o equivalente a 81% de acerto.

Escolhas ruins

Propositalmente, os cientistas escolheram alguns participantes para serem “um remetente ruim”, invertendo as respostas em 10 dos 16 testes. Com o tempo, o receptor passou de relativamente neutro em relação aos dois remetentes a alguém que dava preferência às informações do “bom remetente”.

A equipe espera que esses resultados abram caminho para novas interfaces entre cérebros, permitindo, por exemplo, que as pessoas consigam resolver problemas difíceis a distância e de forma colaborativa. Profissionais como policiais, médicos e soldados poderiam se beneficiar do recurso. No campo da saúde, um paciente mais debilitado, com sequelas na fala causados por um AVC, por exemplo, poderia se comunicar com familiares e cuidadores.

“Por enquanto, isso é apenas um passo de bebê. Nosso equipamento ainda é caro e muito volumoso, e a tarefa é um jogo. Estamos apenas decolando”, diz Rajesh Rao. Para os criadores, junto com o desenvolvimento da tecnologia, é preciso ocorrer um debate ético sobre esse tipo de interface, incluindo, por exemplo, o desenvolvimento de protocolos que garantam a privacidade das pessoas.

Via: Correio Brasiliense


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